:: Artesãos e comerciantes

A arqueologia industrial reporta a importância económica da actividade mineira na primeira metade do século passado. A extracção de estanho e volfrâmio em Queiriga, na década de ’40, empregou até meio milhar de operários. Mas como a precariedade do trabalho ciclicamente devolvesse os trabalhadores à lavoura, estes nunca a abandonavam inteiramente. Das antigas minas retira-se doravante areia e feldspato para a construção civil.
Na tradição artesanal destacou-se a confecção caseira em linho, perdida para a indústria do algodão. O pisão de Fráguas melhorava o acabamento do burel tecido em casa. Fazem-se ainda trabalhos de azulejaria, cerâmica, restauro e ferro forjado (V. N. de Paiva), cestaria e tamancaria (Pendilhe, Alhais, V. N. de Paiva e Queiriga), mantas de lã (V. N. de Paiva e Pendilhe), vestuário de burel e meias (Pendilhe), miniaturas em madeira de alfai-as agrícolas (Vila Cova-à-Coelheira e V. N. de Paiva), cantaria (Alhais e V. N. de Paiva), trabalhos figurativos em granito (Fráguas).
À sede do Concelho, equidistante das freguesias, converge naturalmente o principal comércio, que é agitado ao sábado pela quinzenal Feira de Barrelas, de origem possivelmente tricentenária. Em 1940 M. Fonseca da Gama descrevia-lhe por estas palavras: ‘Na feira de V. N. Paiva se realizam grandes e variadas transacções, as primeiras das quais são os cereais, o gado vacum e suíno, tecidos e artefactos; mas não falta nada. Aqui vem o Douro, o Távora e o Dão pôr as suas frutas; Aguiar os seus queijos; Viseu e Lamego as suas indústrias; Espinho, Aveiro e Matosinhos o seu pescado (a sardinha, em abundância) e o sal; o Vouga as suas madeiras. Ali o homem, como a menina, se pode vestir, calçar e enfeitar.’ (M. F. Gama, 1940) O lavrador procurava as empeirarias, ali onde o ferrador mas também capador, barbeiro, charlatão e tira-dentes exerciam seus misteres.
O mercado terá sido criado para acorrer às despesas de culto da Igreja Matriz, junto da qual se realiza. Essa ligação original presidiria, até há pouco tempo, à interrupção solene da actividade durante as doze badaladas do meio-dia: ‘todo o povo suspendia a azáfama, se aquietava e permanecia em silêncio para rezar a prece das ave-marias.’ (H. Almeida, 2003)
A gastronomia carece em divulgação o que sobra em apuro palatal: do javali, coelho guisado com carqueja, truta com molho de escabeche, carneiro ensopado, cabrito de caldeirada aos defumados de Pendilhe e doces – papas de relão, pão de ovos e cavacas na Páscoa, caldo de abóbora com leite. Pão é mistura de centeio e milho – que é a broa daqui –, o de centeio é mais para o Outono, pois o milho mói-se com dificuldade, e ainda se encontra um raro trigo de Barrelas. O mel há em Pendilhe e o queijo de cabra em Touro.