A Polícia de Segurança Pública de Viseu recebeu, pela manhã de ontem, vários telefonemas a pedirem auxilio por os estabelecimentos comerciais terem aparecido de porta aberta ou quase aberta. Numa oculista, na Rua Dom Duarte, o único sinal de tentativa foi o alerta do alarme, por volta das duas da manhã.
Na Rua Direita, pelos menos duas casas foram alvo dos gatunos, sendo que só numa delas é que alguém entrou. "Arrombaram-me a porta e levaram-me o dinheiro que tinha na caixa registadora. Felizmente, não foi muito, porque só deixei ficar miúdos por causa dos trocos, nada mais, foram 60 euros", conta a proprietária do Bazar Litos, Maria Carvalho. "A juntar ao dinheiro também tenho a despesa do arranjo da porta e, possivelmente, um investimento de milhares de euros para colocar câmaras de vigilância na loja", adianta. Segundo Maria Carvalho, "as câmaras são uma certeza e, já no imediato" mas, "a falta de polícias na rua também não ajuda".
Sem medo
Maria Carvalho afirma que não tem medo e, se for preciso, está disposta a dormir na loja, até porque nunca pensou que fosse alvo de furtos. "Já tentaram assaltar a loja duas vezes e, uma delas foi há cerca de um ano, mas como não vendo bons casacos, nem sapatos, são apenas brinquedos, nunca pensei que quisessem alguma coisa daqui", diz.
"Nunca se viu nada como actualmente, passam o dia para cima e para baixo, só a dizer palavrões, e sem respeito nenhum pelas pessoas. Isto é tudo feito por gente desta", refere a empresária, acrescentando que, na caixa, deixaram-lhe as moedas pretas. "Deve ser por não terem grande valor. Nem lhe mexeram".
Furto em Repeses
Também as moedas pretas ficaram na caixa registadora de Maria Emília, na mercearia que tem em Repeses e que nunca tinha. "Há 36 anos aqui e nunca me tinha acontecido nada, felizmente, isto é horrível", desabafa.
"Levaram-me os trocos, mas só as moedas de maior valor, as pretas ficaram, levaram também duas garrafas de Anis e limparam-me quanto tabaco tinha. O pior é que tinha acabado de adquirir alguns volumes para repor as prateleiras", descreve.
De porta aberta
Maria Emília diz que achou muito estranho, de manhã, quando chegou ao estabelecimento e viu o seu cliente habitual da manhã, já sentado dentro do estabelecimento. "Fiquei de boca aberta e perguntei-lhe quem é que lhe abriu a porta. Ele acabou por dizer que pensava que tinha sido eu". Maria Emília conta que o cliente fica muita vez a tomar conta do seu comércio enquanto vai a casa da mãe, uma vez que esta se encontra doente. "Ele pensou que eu lá tinha ido e aqui ficou a guardar a porta", disse.
Foi também com o mesmo cliente de confiança que entrou no estabelecimento e no armazém, "não fosse estar alguém ainda lá dentro". "Foi então que dei conta que a janela do quarto de banho, que dá para uma propriedade privada, estava sem a habitual grade".
Maria Emília diz que, o, ou os suspeitos, terão saltado o gradeamento da casa privada, com a ajuda das garrafas de gás que estão no exterior do estabelecimento e entraram pela janela e saíram pela porta. "A porta tem trancas por dentro mas, para deixarem a porta aberta, é sinal de que foi por aqui que saíram.
Prejuízo
A proprietária adianta, ainda, que, além dos valores já enumerados, também "remexeram noutros compartimentos da loja, mas como não havia nada de valor…". Maria Emília diz que o prejuízo será na ordem dos 250 euros. "Sei que não é muito dinheiro mas, para mim, é muito. Eu vivo do meu trabalho, não devo nada a ninguém. Já estou farta de ver se levaram mais coisas mas não vejo nada, não falta comida, nada. Eu vivo do meu trabalho para me sustentar a mim e à minha família, com muito sacrifício, não posso andar a trabalhar para sustentar malandros", exclama, revoltada.
Várias tentativas na cidade
Além destes dois estabelecimentos comerciais, também a Nancor, na Rua Direita, foi alvo de tentativa. "Só não entraram porque a porta tem uma óptima fechadura, que não é fácil de arrombar, porque se não também entrariam", considera o proprietário.
O responsável lamenta, ainda, "a falta de policiamento que há". "Não compreendo que a polícia camarária não possa, também, andar na rua, sempre tem um efeito dissuasor e não digo só de dia, falo, também, pelas horas da noite".
A esposa acrescenta que, "já há melhorias no que diz respeito a problemas com a droga, na zona, por causa da actuação da PSP, mas ainda não chega, pelo menos de noite".
Também a Churrasqueira Carvão, na Rua José Branquinho, foi alvo de tentativa de assalto. "Tentaram, mas deve ter aparecido alguém e fugiram antes de conseguirem, como também estamos perto dos bombeiros", calcula o proprietário António Cunha.
A porta quase aberta pela manhã não deu para o susto, principalmente quando já, há quatro anos, pelo Natal, sofreram um assalto que lhes causou um prejuízo na ordem dos três mil euros. "Até hoje, a PSP nunca descobriu quem foi".
Falta de efectivos policiais
O comandante da PSP de Viseu, intendente Victor Rodrigues, esclarece que "a cidade está a crescer e há mais pessoas a circular, o que acaba por, também, aumentar a criminalidade mas, são situações pontuais que não se conseguem controlar. Devo dizer que a PSP até tem conseguido reduzir o número de crimes, comparando com o ano passado".
O comandante adianta, ainda, que "a PSP tem identificado vários indivíduos pela prática de furto e, em relativo pouco tempo, o que é muito positivo".
Victor Rodrigues não esconde que "a falta de efectivos na PSP também não ajuda". "Numa esquadra de 273 elementos, tenho pouco mais de 220 e, isso, também se reflecte, obviamente e dos elementos que há, uma grande parte ronda os 50 anos", adianta.
Segundo o comandante da esquadra, "já foi feito um pedido ao comando geral para que, no final da próxima escola de agentes, tenham que vir alguns para Viseu". "Sei que as prioridades são Lisboa, Porto e outras cidades onde a criminalidade é maior mas, de facto, se no próximo ano não vierem efectivos para aqui, ficamos muito mal, numa situação muito delicada".
No que diz respeito aos assaltos que ocorreram durante a noite, a PSP está a investigar se, eventualmente, há alguma relação entre os autores.
Fonte: Diário de Viseu