Quando, sem aviso, se chega a casa de Isabel Souto, em várzea de Calde ainda paira uma neblina teimosa de Junho. A senhora quase desaparece por entre o linho alto que tem plantado no quintal e retira as ervas daninhas que incomodam a planta e… a vista. Tal como a vizinha do lado, sua irmã Ana Souto, Isabel plantou linho onde poderia ter relva, flores e legumes, costume tão ao gosto das beirãs.
São pequenas as belgas de linho que possuem as 21 cooperantes da recém criada Cooperativa do Linho de Várzea de Calde. São, todavia, e para já, suficientes, para que, como Ana e Isabel Souto, já tenham a capacidade de fazer fio de linho, com o qual tecem (em teares que cada uma adquiriu)os mais variados panos, toalhas, tapetes e outros produtos de utilidade e decoração de interiores.
Gente com objectivos
A Cooperativa do Linho de Várzea de Calde é liderada por Hermenegildo Gonçalves, um entusiasta do retomar desta actividade na localidade. De acordo com Hermenegildo, “está tudo prontinho para o início da actividade da cooperativa”. As cooperantes já tiveram formação necessária para a actividade e o que mais se pretende é que o empreendimento se torne activo e rentável. Por enquanto as 21 senhoras estão em momento de experiências: do cultivo ao amanho, chegam ao fio do linho com o qual, em teares que possuem em casa, fazem conjuntos de quarto, toalhas, colchas, tapetes, entre outros.
O objectivo mais “interessante”, de acordo com Ana e Isabel Souto seria a comercialização de pano e fio de linho. “Estamos no bom caminho e certamente que as nossas cooperantes vão conseguir vingar”, diz Hermenegildo Gonçalves, satisfeito e com a esperança estampada no rosto.
A aliança entre o antigo e o moderno
E há uma vantagem a acrescentar à forma como as cooperantes fazem o linho em Várzea de Calde. Conseguem aliar as novas técnicas para obter a fibra à forma tradicional que, pela memória das mais antigas senhoras da aldeia, ainda conseguem ser transmitida. Este factor proporciona, certamente, personalidade e valor ao linho que, doravante será produzido pela Cooperativa.
Quem está também “envolvido” na promoção do linho de Várzea de Calde é o Grupo Folclórico e Etnográfico local. São incansáveis em percorrer vários pontos do país e do distrito e concelho de Viseu para os tradicionais e agradáveis “serões da Beira Alta”. Ao som de cantares (um ou vários para cada fase do ciclo do linho) mostram como se faz e, ainda por cima, distraem a audiência com jogos tradicionais e brincadeiras saudáveis da aldeia.
Outro empreendimento que, sem dúvida alguma, vai atrair visitantes a Várzea de Calde, será o Museu do Linho, uma iniciativa da Câmara Municipal de Viseu e da Junta de Freguesia de Calde. Trata-se de um espaço moderno, quem em breve será inaugurado, e onde é mostrada toda a tradição do linho e a sua importância em tempos idos.
Fonte: Gazeta Rural